Rádio e Televisão da Parvoíce

A parábola dos cegos, de Pieter Bruegel

 

Se a notícia tiver fundamento, no fim de contas a montanha vai parir um rato. Pior do que a solução – que, a ser a real, até será próxima da sensatez – é o modelo de governação subjacente. Ou melhor, de desgovernação. É impressionante que não haja no Governo uma cabeça que tenha um projecto para o país, que não passe por discutir tudo em praça pública depois de anunciar soluções extremas e radicais, retirando/recuando depois para ficar tudo como estava. Esta gente parece confundir democracia com debate e não percebe patavina do que seja governar ou deter o poder. Incapazes de reflectir, não percebem que lhes cabe a eles apontar o caminho, decidir, sendo por isso que o poder acaba por ser – desde sempre – absolutamente solitário. Mesmo quando se está no meio da multidão, ou a propósito, à frente de uma qualquer câmara de televisão.

Nem Tancredo, o sobrinho do Príncipe de Salina, se lembraria de tal coisa!

O meu pinheiro de Natal

Ao ler isto – Árvore de Natal no Terreiro do Paço custa 230 mil euros ao município de Lisboa – ocorrem-me algumas considerações:

a) ficamos a saber para que servem as empresas municipais: esconder despesa das Câmaras Municipais;

b) ficamos a saber que a Egeac “não tem a ver directamente“com os projectos que adjudica, mas a CML também não. Assim a culpa é uma velha solteirona que morrerá sempre sozinha;

c) ficamos a saber como se contorna a lei dos concursos públicos: divide-se um projecto de 229.637 euros em nove parcelas todas inferiores ao limite mínimo legal de 75 mil euros, conseguindo assim fazer tudo por adjudicação directa. Simples, não?

d) Ficamos a saber que as obras e projectos adquiridos ao Sr. Leonel Moura pela CML são como as lojas dos 300: têm todas o valor de 74 mil euros (o que é curioso tendo em conta os tais limites mínimos que obrigam – ou não – ao lançamento de concurso);

e) ficamos a saber que, em vez de negociarem antes da “época alta” de Natal, os responsáveis da Egeac e da CML fazem tudo em Novembro à última da hora, nunca assim conseguindo melhores preços – o respeito pelo dinheiro dos contribuintes, e dos lisboetas em particular, é enternecedor!

f) Ficamos a saber que a Egeac fez uma média de quase 20 ajustes directos por mês no último semestre, cada um com um valor médio de 17 mil euros (perfazendo, portanto, cerca de 2 milhões de euros) – se para todas as encomendas dividir o valor total por 9, já se vê…

g) o projecto do “jardim portátil” que está no Cais do Sodré, sendo sempre discutível ao nível do gosto, é esteticamente interessante e uma boa solução para um local onde é impossível plantar as oliveiras (por ser num cais suspenso sobre o Tejo). Já a “árvore de Natal” é tudo menos uma árvore de Natal. Que bom é ver o nosso dinheiro atirado à rua.

Julgo que ficamos conversador sobre as virtudes do municipalismo republicano…

Viva a reacção!