Crime sem castigo

Amaro da Costa e Sá Carneiro

Há precisamente 32 anos o país era abalado pela notícia do acidente de Camarate. Há precisamente 32 anos, enquanto me mudavam as fraldas, ouvia as primeiras exclamações: MATARAM-NOS! MATARAM-NOS!

Não se sabia ainda muito do que se viria a saber. Não se tinha investigado ainda muito do que se veio a investigar. Não se tinha especulado ainda muito do que se veio a especular. Não se tinha ainda dito em surdina muito do que se veio a dizer. Não se tinha descoberto nada do que se veio a descobrir. No entanto, naquela casa distante do cheiro a queimado do Cessna_ YV-314-P_ nunca houve dúvidas – só podia ser atentado. Só podia ser propositado. Só podia ser provocado.

Mais de uma trintena de anos depois sabemos muito melhor o que esteve em causa. Estamos mais perto da verdade do que alguma vez estivemos. Há alguns meses atrás surgiu – sobretudo na blogosfera – uma confissão da autoria do atentado. Mesmo descontando as partes cinematográfico-oníricas de tal documento, não deixa de ser arrepiante. O que nele consta com muitos pormenores verificáveis (demasiados para contituirem uma pura invenção) é a narrativa de uma conspiração internacional que visou, de um só golpe, eliminar o Primeiro-Ministro e o Ministro da Defesa de Portugal (Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, respectivamente). Tout court.

Pior do que tudo isto foi o silêncio ensurdecedor dos apontados como autores morais de um dos maiores crimes da nossa História. A sua mudez só pode significar o que todos tememos pensar ou dizer alto. A ausência de uma defesa intransigente da sua honra e do seu bom nome só pode significar o que todos estamos a pensar.

Nesta triste e suja história ninguém sai bem no retrato final: nem a polícia, nem a investigação, nem a justiça, nem os seus sucessores políticos que preferiram varrer para debaixo do tapete a incomodidade da tragédia. Naquela hora não perdemos apenas sete compatriotas barbaramente assassinados – perdemos os dois maiores líderes políticos que tivemos em Democracia. Perdemos, talvez, os dois últimos grandes e impolutos.

Foi Portugal quem saiu tristemente vexado em todo este crime. E foi a Terceira República que saiu ferida de morte ainda nos seus primeiros passos. Tal como já aprendêramos com a Primeira República (e com muitos outros exemplos da História mundial), não é possível um regime ser erguido sobre o assassinato e o sangue. Toda a esperança de Sophia num “dia inicial inteiro e limpo” ficou irremediavelmente manchada. Toda a esperança de um Portugal justo e livre acabou ali.

O resultado está à vista.